8 de mai de 2012

Considerações sobre o Movimento Reage, Araraquara e a política araraquarense

O Movimento Reage, Araraquara vem polemizando a política na cidade e deixado a maioria dos vereadores de cabelo em pé. Nascido como um grito de indignação da população ante a aprovação de 58% de reajuste no salário dos vereadores, o Movimento que não tem precedentes na história da cidade merece reflexão. Nem precedentes nem histórico parecido, diga-se de passagem.

Na minha opinião muito se enganam aqueles, principalmente os vereadores e parte da classe política local, que pensam ser este movimento uma conseqüência única e exclusiva desta votação absurda. Por mais que seja revoltante, acredito que o “buraco é mais em cima”como diz a Rita Lee. Nunca vivemos um contexto como o atual onde é cada vez mais possível e constante o acompanhamento da política, da vida pública e da atuação política individual de nossos representantes por parte da sociedade. Principalmente com a internet e a interação nas redes sociais, o pensamento e a informação quase sempre tendenciosa da grande mídia vem perdendo espaço para as opiniões e idéias das pessoas, feitas em tempo real e numa velocidade assustadora. A notícia do jornal da manhã já é velha para quem interage nas redes. Muito do que era escondido ou disfarçado agora já não é mais possível escamotear. 

A opinião pública ganha assim maior autonomia com instrumentos independentes de acompanhamento, informação e expressão, fiscalização e controle social. Não à toa, as recentes manifestações ocorridas na cidade se não oriundas da tradicional mobilização partidária ou sindical, foram majoritariamente articuladas pelas e nas redes sociais, em especial o Facebook. Digo isso com o conhecimento de quem interage nas redes sociais como espaço de debate político há um bom tempo. Em 2008, falando em nível municipal, aconteceram alguns debates no Orkut no período pré-eleitoral que se acirraram bastante nas eleições. Mas nem de longe é possível comparar à amplitude e força com que acontece agora, apenas quatro anos depois. 

A recente informação divulgada pelo IBGE de que quase 70% das residências em Araraquara têm computador e dessas, 85% acessam a internet, nos permitem supor o alcance dessa participação. Assim, considerando que a população tem acompanhado mais a vida política na cidade e se deparado com a triste realidade expressa nos debates, mas principalmente na falta deles, nas sessões da Câmara, bem como no despreparo geral de quem nos representa, é bastante razoável a reflexão de que o Reage Araraquara catalisa uma insatisfação maior que precede a votação dos salários. Esta, a meu ver, se constituiu como o estopim para que essa mobilização ganhasse força e se consolidasse na nossa cidade. Claro que o tema dos salários por ser de fácil compreensão às pessoas contribui para esta rápida ampliação, mas é um erro grotesco pensar que a revolta da sociedade araraquarense expressa nas quase 8 mil assinaturas em tempo recorde é pontual. 

Nesse sentido, torna-se cada vez mais arbitrária e patética a grita geral dos vereadores e lideranças políticas que insistem em desqualificar o Movimento e seus participantes, subestimando sua força potencial. Para a classe política local acomodada no tradicionalismo da representação surda aos anseios da sociedade, distante do povo e sem participação cidadã, este movimento aparece como um verdadeiro Bicho Papão no modus operandi da política araraquarense. Entretanto, basta refletir um pouquinho mais sobre as novas e modernas formas de organização da sociedade – em escala mundial – para observarmos que esse movimento representa, mais do que “fogo de palha”, uma tendência (espero que irreversível) de novos meios de exercitarmos nossa cidadania. 

Pra além dos Partidos, Sindicatos e Movimento Estudantil institucionalizados, os grupos independentes, os coletivos e fóruns de discussão virtual têm mobilizado pessoas e ganhado força para pautar a agenda pública dos governos nos diversos níveis. Essas novas organizações devem ser respeitadas e consideradas interlocutoras legítimas de interesses e lutas da sociedade. Não tenho dúvidas que quanto mais a sociedade acompanhar e se informar da prática política tradicional – distante dos cidadãos e comumente de acordos impossíveis de defender publicamente – mais ela reagirá em defesa de seus interesses. 

O necessário equilíbrio entre a Democracia Representativa e a Participativa deve ser entendido, portanto, como a plena Democracia que defendemos e pela qual lutamos. Não é possível ainda medir no que o Reage, Araraquara irá desdobrar do ponto de vista político, cultural e social para a cidade. Desde já, fica evidente o êxito deste Movimento na medida em que estimula uma nova cultura política na cidade - a da participação e mobilização popular - de forma eficaz e coletiva.

E se é assim, que tenha vida longa independente do P que esteja no poder. Araraquara só tem a ganhar.

8 comentários:

Tunin disse...

Tudo o que você escreveu, com muita propriedade, resolveria se a população brasileira fosse politizada e votasse corretamente no cara que deseja o bem da coletividade e não o apenas pessoal.
Vamos pedir a Deus uma melhoria na educação para que as pessoas possam se instruir melhor e não sejam manipuladas.
Abração.

Rita disse...

Esse movimento está arrasando aqui
em Araraquara,como foi dito ai
no texto independente do partido
que ele seja o melhor para o melhor
da nossa população!
Abrçs Rita!!!!

Patricia Galis disse...

Parabéns pela postagem estou muito feliz de ver a minha cidade agindo, exigindo e melhor informada. Tenho a impressão que essa eleição vai ser praticamente decidida em redes sociais, quanto aos vereadores se não retrocederem nesta aumento absurdo com certeza não serão reeleitos.

Patrizia Dias disse...

Pode não resolver os problemas mas mostra que a população não é mais assim tão estupida parabéns a sua cidade.

Joabe disse...

Isso ai o povo não vai mais ficar de boca fechada não.

Jorge disse...

Se todos se manifestassem tudo seria diferente só concordo que hoje em dia poucos se informem lamentável mas nota 10 pela atitude dos araraquarenses.
Vereadores que se cuidem as eleições estão ai cartão vermelho a todos.

Lamarque disse...

muito bem detalhado seu texto sobre araraquara. joia. bom ler dados. eu gosto. abraços lamarque

Waldir disse...

Um texto bem elaborado concordo com vc.