24 de out de 2011

Descobrindo as maravilhas de ser MULHER

 A relação entre homens e mulheres e o “papel” de cada um na sociedade é uma coisa que sempre me provocou inquietação. Tenho um irmão gêmeo e somos os caçulas do casamento do meu pai com minha mãe. O fato de ser gêmea de um homem colocava as diferenças entre o que a sociedade espera de um homem e de uma mulher de uma forma muito concreta em minha vida.

Segundo reza a lenda na família, meu pai tinha muitas expectativas pela chegada de um filho varão, uma vez que já tinha duas filhas mulheres e nada do homem chegar. Quando identificaram se tratar de gêmeos na terceira gestação da minha mãe, eu estava embaixo do meu irmão na barriga, assim, o ultrassom identificava apenas meu irmão, provocando expectativas sobre o sexo do segundo bebê.

Ouço uma história que no dia de nossa chegada, meu pai aguardava na sala de espera da maternidade e sabendo das expectativas do velho, passou uma enfermeira com o primeiro bebê no colo e lhe fez sinal positivo com o polegar: era um menino. Aguardando a chegada do segundo bebê - o de sexo incógnito – voltou em seguida a enfermeira mas desta vez o sinal com o polegar foi negativo: era eu, a menina. E assim, fechou-se o ciclo da procriação do primeiro casamento do meu pai, resultando em três mulheres e um homem. (Em seu segundo casamento, deu menina de novo. rsrs)

Como um homem comum do interior, meu pai é apaixonado por futebol, truco e amante da música de viola. Nessas 3 paixões ele se engajou bastante: jogou como amador e por um tempão foi técnico de time de futebol, atuou profissionalmente como violeiro e disputou uma infinidade de torneios de Truco. Evidentemente, sua expectativa era que seu filho homem, meu irmão gêmeo, fosse seu companheiro nessa rotina masculina. Mas, como a vida é uma caixinha de surpresas, o tiro meio que saiu pela culatra.

Meu irmão, Luiz Henrique, ao passar do tempo mostrava pouco interesse por futebol, quase nenhum talento para o Truco e desinteresse pelas rodas de viola. Ao passo que eu não desgrudava do meu pai por nada. Ao seu lado aprendi a torcer e a amar a AFE e o Palmeiras (ai se arrependimento matasse... rsrs), de tanto pagar “tento” nos torneios de Truco em que eu o acompanhava, modéstia a parte, me aperfeiçoei no jogo e Tião Carreiro é uma das principais referências na minha formação cultural!

Então, vocês podem imaginar, passei a vida toda ouvindo principalmente da família, que estava tudo errado. Que meu irmão deveria ter nascido mulher e eu, homem. Que durante a gestação da minha mãe, alguma coisa havia sido trocada e por aí vai. Naturalmente, isso sempre me provocou inquietação e algumas vezes cheguei a pensar se de fato alguma coisa não deveria ter dado errado naquela barriga!

Quando, já na faculdade e depois com mais intensidade no movimento de mulheres do PT, tomei contato com as discussões Feministas, foi como se um farol iluminasse muita coisa pra mim. Conscientizei-me sobre a opressão secular das mulheres, a estrutura patriarcal da sociedade, a dominação machista. Aprendi e tenho aprendido muito sobre a questão da violência doméstica, a divisão sexual do trabalho, sobre a desigualdade de gênero e sobre “o papel da mulher” na sociedade.

Esse contato com o pensamento Feminista foi e é fundamental para meu crescimento pessoal e para a compreensão das relações tão complexas da vida em sociedade. Superei essa dúvida cruel sobre um possível equívoco divino na hora do meu nascimento, assumindo com tranqüilidade minha condição feminina mesmo que um pouco diferenciada do comportamento padrão IMPOSTO a maioria das mulheres.

Mas, confesso a vocês que apesar desse conhecimento, ainda sentia/sinto carência em compreender mais profundamente que bendita igualdade de direitos é essa!

Porque o fato é que homens e mulheres são diferentes: reagimos diferente à dor, nosso corpo funciona de forma muito diferente, incluindo nosso cérebro e também percebemos/interpretamos o mundo de forma diferente. Mesmo depois de compreender melhor o sentido de EQUIDADE, ainda assim tinha como espelho certo padrão de comportamento masculino como forma de romper com a opressão feminina. Como se para ser aceita e respeitada pra além de um pedaço viçoso de carne, nós mulheres tivéssemos que nos comportar como homens em determinadas situações para reafirmar nossa igualdade. E o mais penoso, romper ou descartar certas características inerentes ao universo feminino.

Como distinguir o que é fruto da construção social dos gêneros ou "o papel que a sociedade espera de nós" daquilo que realmente compõe o universo feminino? Como alcançar equilíbrio e  discernimento  para superarmos as barreiras do machismo sem desvalorizar aquilo que nos diferencia enquanto mulheres?

É sobre isso, sobre descobertas recentes que mexeram muito comigo que eu quero tratar no próximo post.

Do fantástico elo entre as mulheres e a natureza ao misterioso universo do ciclo menstrual.

Meninas queridas, não percam!

Desde já, fica aqui meu eterno agradecimento a influência de duas mulheres fundamentais nessa fase de muitas descobertas em minha vida: Vera Botta e  Andréa Túbero. Sou inteiramente grata pela oportunidade de conhecer e aprender com essas duas mulheres!

5 comentários:

Andréa Túbero disse...

Querida Gabriela,
Adorei o blog, adorei o post: sua verdade pulsa nele! É muito bom vê-la assim; inteira, intensa!
Com carinho, A.
PS:Grata pela deferência! Aprendemos sempre... juntas!

@ Escritora disse...

Belo post!

Claro, a sociedade nos cria com as bases machistas da religiosidade, mas o comportamento de cada um não tem sexo, somos o que somos independente do nosso corpo físico.


Abçs

Agnes disse...

Um belo texto minha querida, deve ter sido muito curioso mesmo, vc gostar das coisas do papai e seu irmão não ligar, isso prova que somos seres além do corpo físico, e lá não tem sexo, quanto a maravilha de ser mulher, relutei muito, sou de uma outra época, hoje algumas coisas mudaram vejo pelas minhas netas, ainda bem, já estou te seguindo.

Luiz Henrique disse...

Nossa me emocionei ao ver esse
belo texto..nossas vidas em comum
Vc é corajosa e por isso te
admiro tanto Paranbéns sempre!!

Cris Henriques disse...

Oi amiga Gabi!

Guerra dos Sexos, quer seja homem ou mulher neste mundo ainda é necessário haver ambos os sexos para que a espécie humana se propague. No entanto, ninguém sabe se vai ser assim toda a eternidade.

Nós humanos, temos duas energias dentro de nós: a energia masculina e a energia feminina, os meridianos yang e yin. Porém, à medida que crescemos optamamos por uma dessas energias de acordo com as nossas vontades. Neste caso tu deves ter optado pela energia yang, que é mais física e cheia acção. A energia masculina. Já o teu irmão, optou pela energia yin, que é uma energia mais emocional e contemplativa. A energia feminina.

Em astrologia, no caso de os bebés serem gémeos, eles nunca vão querer ser iguais e nem parecidos um com o outro. Porque cada um tem a sua própria personalidade, assim, um opta pela energia do Sol, outro pela da Lua. O do Sol será mais forte e autoritário, o da Lua será mais passivo e sensível.

Este pode ser o vosso caso. :)

Um beijinho, amiga.

Cris Henriques

http://oqueomeu coracaodiz.blogspot.com

P. S. - Obrigada por comentares o conto, estou a escrever a 3ª Parte.