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23 de mai. de 2012

Políticas para Mulheres em Araraquara: Um museu de grandes novidades!

Olá amig@s, segue um artigo publicado num jornal local, O Imparcial, onde tratamos sobre a questão das mulheres em Araraquara. O texto é longo, mas o conteúdo é de extrema importância. Espero que gostem!

As matérias divulgadas em veículos da imprensa local, no dia 17 de maio,sob o título “Reunião define Protocolo contra violência doméstica” e "Centro de Referência amplia horário de trabalho para atender mulheres" merecem reflexão. Para além do interesse óbvio a respeitodo andamento dessas políticas públicas – como Protocolo de Atendimento às Mulheres Vítimas da Violência Doméstica - iniciado em 2006, durante o governo do PT e elaborado por meio de uma parceria com a Escola de Enfermagem da USP – as referidas matérias possuem um tom de “novidade”, supostamente sustentado pelo discurso entre aspas das autoridades, que revelam na verdade falta de cuidado com o tema e de memória, no que diz respeito às políticas públicas para as mulheres em Araraquara.

Primeiramente, é importante “traduzir” para a realidade das mulheres o que significa esse Protocolo. Na prática, trata-se da padronização do serviço público relativamente à notificação da violência, atendimento e acompanhamento de mulheres que sofrem violência por meio da articulação dos diversos setores que compõem ou deveriam compor nossa rede de atendimento, como o Centro de Referência da Mulher, a Delegacia de Mulheres, o Pronto Socorro, Hospitais, Postos, Escolas, Polícia Militar, os CRAS,o SESA, ONGs,e etc. Vale lembrar que para o governo Edinho Silva, o Protocolo era ação “número um” do rol de prioridades para a superação da violência no município e que deveria ter sido, portanto, continuado e efetivado. Quatro anos depois nos deparamos com “notícias” constrangedoras, nas quais autoridades repetem lugares-comuns que não indicam qualquer avanço ou acúmulo para a efetivação do Protocolo como, por exemplo: “o prefeito enfatizou que a violência doméstica e familiar só será combatida, de fato, ‘com o envolvimento de todos os setores responsáveis da cidade’”, ou ainda “Segundo a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Edna Martins, também presidente o Cedro Mulher na cidade, o Protocolo em caso de violência sexual determinará que as notificações sejam encaminhadas para o Sesa (Serviço Especial de Saúde de Araraquara) ou para a Santa Casa”.

Ao que parece há um problema conceitual na matéria, que provavelmente se referia ao fluxo de atendimento – e não de notificações – da violência sexual aguda. Perguntamos então: qual a novidade para as mulheres, uma vez que o SESA inicia esse atendimento em 1996, cuja formalização acontece a partir de 2003? E lá se vão quase dez anos de trabalho... Questões relacionadas ao fluxo das notificações e à necessidade de informatização da rede de atendimento, que permita, de um lado, a formação de um histórico dessas mulheres para que se evite o sofrimento e a ritualização da violência sofrida, cada vez que se faz necessário recontar o que aconteceu, em cada setor envolvido no atendimento; e de outro lado, a criação de um banco de dados, fundamental para que o poder público tenha informações concretas sobre a violência no município. Também não há nenhuma informação relevante a respeito da unificação de protocolos: mulheres, idosos, crianças, “adolescentes” e LGBTs, que daria um excelente debate, cujo tema poderia ser igualdade de direitos, mas com respeito às diferenças e especificidades, que parecem ter sido também esquecidas... 

A referida matéria cita ainda“Marcelo também destacou a participação de Araraquara entre as seis cidades brasileiras que integram o “Projeto 100 Cittá” e, por isso, recebem recursos financeiros da União Europeia, via Itália, para discutir e combater a violência contra a mulher.” Novamente, sem constrangimento algum, divulgam projetos iniciados na gestão anterior, ainda não concluídos, como grande “novidade” para as mulheres da cidade.

A outra matéria, a respeito da jornada estendida do Centro de Referência das Mulheres até às 20 horas é ainda mais escandalosa! Justifica a ampliação do horário como uma demanda das mulheres, mas apresenta as oficinas de yoga como a “novidade” a ser ofertada nesses horários, para as funcionárias públicas. Ora, ora é de conhecimento da atual administração que a prática de Yoga no Centro teve início em 2004 e que até 2008 foram realizados 1.106 atendimentos. Esses dados estão no relatório de transição, entregue ao prefeito Marcelo Barbieri. As funcionárias públicas contavam com horários às 7 da manhã, nos horários de almoço e após as 18 horas. Caso o(a) leitor(a) queira se recordar, é possível acessar a reportagem publicada em 2007, sobre o aniversário de 6 anos do Centro de Referência, que dentre os diversos serviços implantados e prestados, destacava o atendimento psicológico, o acolhimento de mulheres vítimas de violência, a orientação jurídica, as aulas de yoga e relaxamento corporal, as palestras e oficinas para a comunidade e servidores - http://www.portalaondevamos.com.br/conteudo.php?id_conteudo=450&id_sessao=33 . Perguntamos mais uma vez: qual a novidade deste governo para as mulheres da cidade? Ampliarão o número de vagas? Terão mais instrutores(as)?

A questão que cabe aqui é: se o que era bom ia continuar, por que foi preciso quase quatro anos pra não fazer nem mais do mesmo? Ainda não efetivamos o Protocolo, não aprovamos o Plano Municipal para Mulheres, não avançamos na defesa dos direitos e na superação da violência doméstica, e não tocamos numa enorme ferida: o atendimento aos agressores, previsto também pela Lei Maria da Penha, e igualmente necessário para a superação da violência contra mulheres, crianças, jovens, idosos e LGBTs. Que fique claro: este artigo não tem apenas o objetivo de esclarecer e demarcar politicamente com o governo atual. Vai além. Constitui-se numa contribuição para que a população reflita conscientemente sobre suas escolhas.


Gabriela Palombo / Coletivo de Mulheres PT
Juliana Michelutti Oliveira / Gestora do Centro de Referência da Mulher 2005-2008 / Coletivo de Mulheres do PT

Pra terminar, segue somzaço do Cazuza, O Tempo Não Para, o qual faço alusão no título do artigo. 

24 de out. de 2011

Descobrindo as maravilhas de ser MULHER

 A relação entre homens e mulheres e o “papel” de cada um na sociedade é uma coisa que sempre me provocou inquietação. Tenho um irmão gêmeo e somos os caçulas do casamento do meu pai com minha mãe. O fato de ser gêmea de um homem colocava as diferenças entre o que a sociedade espera de um homem e de uma mulher de uma forma muito concreta em minha vida.

Segundo reza a lenda na família, meu pai tinha muitas expectativas pela chegada de um filho varão, uma vez que já tinha duas filhas mulheres e nada do homem chegar. Quando identificaram se tratar de gêmeos na terceira gestação da minha mãe, eu estava embaixo do meu irmão na barriga, assim, o ultrassom identificava apenas meu irmão, provocando expectativas sobre o sexo do segundo bebê.

Ouço uma história que no dia de nossa chegada, meu pai aguardava na sala de espera da maternidade e sabendo das expectativas do velho, passou uma enfermeira com o primeiro bebê no colo e lhe fez sinal positivo com o polegar: era um menino. Aguardando a chegada do segundo bebê - o de sexo incógnito – voltou em seguida a enfermeira mas desta vez o sinal com o polegar foi negativo: era eu, a menina. E assim, fechou-se o ciclo da procriação do primeiro casamento do meu pai, resultando em três mulheres e um homem. (Em seu segundo casamento, deu menina de novo. rsrs)

Como um homem comum do interior, meu pai é apaixonado por futebol, truco e amante da música de viola. Nessas 3 paixões ele se engajou bastante: jogou como amador e por um tempão foi técnico de time de futebol, atuou profissionalmente como violeiro e disputou uma infinidade de torneios de Truco. Evidentemente, sua expectativa era que seu filho homem, meu irmão gêmeo, fosse seu companheiro nessa rotina masculina. Mas, como a vida é uma caixinha de surpresas, o tiro meio que saiu pela culatra.

Meu irmão, Luiz Henrique, ao passar do tempo mostrava pouco interesse por futebol, quase nenhum talento para o Truco e desinteresse pelas rodas de viola. Ao passo que eu não desgrudava do meu pai por nada. Ao seu lado aprendi a torcer e a amar a AFE e o Palmeiras (ai se arrependimento matasse... rsrs), de tanto pagar “tento” nos torneios de Truco em que eu o acompanhava, modéstia a parte, me aperfeiçoei no jogo e Tião Carreiro é uma das principais referências na minha formação cultural!

Então, vocês podem imaginar, passei a vida toda ouvindo principalmente da família, que estava tudo errado. Que meu irmão deveria ter nascido mulher e eu, homem. Que durante a gestação da minha mãe, alguma coisa havia sido trocada e por aí vai. Naturalmente, isso sempre me provocou inquietação e algumas vezes cheguei a pensar se de fato alguma coisa não deveria ter dado errado naquela barriga!

Quando, já na faculdade e depois com mais intensidade no movimento de mulheres do PT, tomei contato com as discussões Feministas, foi como se um farol iluminasse muita coisa pra mim. Conscientizei-me sobre a opressão secular das mulheres, a estrutura patriarcal da sociedade, a dominação machista. Aprendi e tenho aprendido muito sobre a questão da violência doméstica, a divisão sexual do trabalho, sobre a desigualdade de gênero e sobre “o papel da mulher” na sociedade.

Esse contato com o pensamento Feminista foi e é fundamental para meu crescimento pessoal e para a compreensão das relações tão complexas da vida em sociedade. Superei essa dúvida cruel sobre um possível equívoco divino na hora do meu nascimento, assumindo com tranqüilidade minha condição feminina mesmo que um pouco diferenciada do comportamento padrão IMPOSTO a maioria das mulheres.

Mas, confesso a vocês que apesar desse conhecimento, ainda sentia/sinto carência em compreender mais profundamente que bendita igualdade de direitos é essa!

Porque o fato é que homens e mulheres são diferentes: reagimos diferente à dor, nosso corpo funciona de forma muito diferente, incluindo nosso cérebro e também percebemos/interpretamos o mundo de forma diferente. Mesmo depois de compreender melhor o sentido de EQUIDADE, ainda assim tinha como espelho certo padrão de comportamento masculino como forma de romper com a opressão feminina. Como se para ser aceita e respeitada pra além de um pedaço viçoso de carne, nós mulheres tivéssemos que nos comportar como homens em determinadas situações para reafirmar nossa igualdade. E o mais penoso, romper ou descartar certas características inerentes ao universo feminino.

Como distinguir o que é fruto da construção social dos gêneros ou "o papel que a sociedade espera de nós" daquilo que realmente compõe o universo feminino? Como alcançar equilíbrio e  discernimento  para superarmos as barreiras do machismo sem desvalorizar aquilo que nos diferencia enquanto mulheres?

É sobre isso, sobre descobertas recentes que mexeram muito comigo que eu quero tratar no próximo post.

Do fantástico elo entre as mulheres e a natureza ao misterioso universo do ciclo menstrual.

Meninas queridas, não percam!

Desde já, fica aqui meu eterno agradecimento a influência de duas mulheres fundamentais nessa fase de muitas descobertas em minha vida: Vera Botta e  Andréa Túbero. Sou inteiramente grata pela oportunidade de conhecer e aprender com essas duas mulheres!

17 de out. de 2011

Não quer dizer Não!

Esse texto é uma reprodução extraída do Blog "Blogueiras Feministas",

Não, sempre quer dizer: não!

Meu plano hoje era falar sobre algo mais ameno, ia falar sobre a divisão entre tarefas tipicamente femininas e tarefas tipicamente masculinas e o machismo. Mas não aguentei, nesses dois últimos dias, vi coisas na internet que me deixaram um bocado assustada. Uma garota foi atacada por um homem de forma covarde e cruel pois não quis ficar com ele. A segunda coisa, vi uma imagem que me deixou assustada, era um “manual para entender as mulheres” com comentários bem normais, clichês, que fazem uma tradução machista do que a mulher quer dizer com algumas palavras ou frases. Acredito que as pessoas que postaram não fizeram por mal, não viram como eu vi, mas, um dos itens fala que “Não = Sim”. No momento em que não é sim, a mulher vai falar não para um cara na hora do sexo e ele pode fazer sexo mesmo assim. Afinal ela estaria só fazendo doce. É assustador, triste e não foi a intenção, mas quantas vezes você já viu ou ouviu histórias de homens que utilizam como desculpa para um abuso que a mulher está fazendo doce quando diz NÃO?
 Nós, mulheres somos vítimas de abusos o tempo todo. Se andamos vestidas com roupas curtas merecemos ouvir desaforos em forma de cantadas. Se vamos a uma boate/micareta/”insira-a-sua-balada-preferida-aqui” desacompanhada de um homem é porque desejamos pegar qualquer indivíduo que nos dê mole. Se somos simpáticas estamos dando mole. E, se falamos não, estamos fazendo doce. Até quando nossa vontade será desrespeitada por homens?
Eu fui vítima de abuso sexual na infância, sofro até hoje com o acontecido. Hoje em dia, passo por inúmeros momentos desconfortáveis na rua, no ônibus, na balada, no boteco e, às vezes, até no trabalho, de clientes que não têm noção de que eu sou educada e não estou dando mole para eles. E eu sei que não sou a única, muitos homens aproveitam de uma vulnerabilidade criada pela sociedade machista para abusar e desrespeitar as mulheres.
Só queria explicar que não falo o contrário do que penso, nunca. Muitas vezes incomodo muita gente por causa dessa minha sinceridade. Então quando eu digo NÃO ele quer dizer NÃO. E também que não sou uma boneca inflável, pronta para ser usada por quem bem entender! Eu decido com quem, quando e como eu faço sexo!

Além dessa tradução do manual, existem outras frases do manual que para mim foi incômodo de ler, mas essa foi a que mais me assustou. Acreditar que nós somos robôs e que somos programadas pra pensar todas da mesma forma já é um absurdo, mas falar que quando falamos NÃO estamos dizendo sim é tão lamentável quanto quebrar o braço de uma mulher que não desejou ficar com você.
O que me deixa boba é ver que muitos que ficaram assustados com a história da menina que foi agredida concordam com esse manual. E, pra piorar mais ainda a situação, muitas mulheres concordam com o manual e acham graça, como se tivessem traduzindo seus pensamentos. Mas, aposto que todas diriam NÃO a um homem que não desejam e esperam que esse NÃO seja respeitado. Ou elas conseguiram ver escrito em alguma parte desse manual que ele só não funciona em casos de abuso sexual e estupro?